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15 de abril de 2012

Perigo: relação não se discute

Por Julia Viegas

Keira Knightley em "Um Método Perigoso"


Saí do cinema com a impressão de que Cronenberg ficou com medo de explorar a relação entre Freud e Jung. Que ele preferiu fazer a moçada rir com as cenas de sadô. Diversão garantida. Também me pareceu que Keira Knightley nunca foi a um hospício. E, mesmo antes de ver o filme, achei esse título péssimo. Gostei? Sim. Vai entender meu gosto? Vale tudo: paisagens, música, atores, piadas, tudo. Só não vale discutir a relação... 

30 de novembro de 2011

Leite e Ferro: Só as mães são felizes?



Por Julia Viegas
O documentário brasileiro Leite e Ferro conta histórias de mães presidiárias. Ou melhor, elas contam. E são tão boas, falam com tanta desenvoltura, além de terem histórias ótimas e serem personalidades muito interessantes, que o documentário não deixa nada a desejar aos filmes de ficção.  A protagonista é Daluana, presa por tráfico de drogas e mãe de Levi Pablo. Ela narra alguns fatos de sua vida de forma leve e até divertida. Não é mulher de se queixar. Pelo contrário, tem consciência e sabedoria. Como muitas outras presas, Daluana converteu-se à religião evangélica. Mas, isso não a torna uma alienada. Jesus lhe dá força e isso é belo. As crianças são lindas e o amor de mãe parece salvá-las. São mulheres que vivem uma realidade muito peculiar. Amamentam e recebem ferro, que, por sua vez, está contido no leite. Elas vivem a expectativa aflita de serem separadas de seus filhos. Pois, as crianças só ficam com elas por quatro meses. Outras "personagens" são muito interessantes, como a Jaqueline, por exemplo, que afirma ter sido melhor para ela estar presa, pois "Aqui eu posso cuidar da minha filha. Se eu tivesse do lado de fora eu ia dar ela para alguma pessoa e voltar àquela vida que eu levava (ela era viciada em drogas). Minha filha ia ficar na mão dos outros". Daluana também faz reflexões inteligentes como, no final do filme, em uma cena que mostra o ambiente externo da prisão, onde as crianças tomam banho de sol. Ela diz: "Será que ele (seu filho) entende onde ele está? Não, ele é muito pequeno. Mas, sei lá, dá uma impressão ruim, não é?". E a câmera mostra as grades. Fato que chama a atenção é que a maioria delas tem outros filhos. Uma das detentas tem dez. Outra, portadora do vírus HIV (amanhã é Dia Internacional de Luta contra a AIDS!) já está com seu terceiro filho e diz que, apesar de desejar muito, foi muito difícil engravidar do terceiro, mas ela conseguiu. Para ela foi uma vitória. É realmente outra realidade. Mulheres grávidas nas ruas apanhando de policiais, sendo presas em plena gestação, passando por situações humilhantes, desconfortáveis e de risco de morte, tanto para si quanto para os bebês. Certamente a maternidade não as faz de todo felizes. Porém, lhes é tão natural que assombra. Importante conhecer outros mundos. 

14 de outubro de 2011

Discursando a vitória do filme do rei




Por Julia Viegas

Um povo que não é ouvido e um rei que não consegue falar. Aqui, as situações se invertem. Quando ganhou o Oscar, revoltei-me. Não pelo tema, mas porque derrubou o meu amado Cisne Negro. Tudo bem, essas coisas acontecem. A história do rei George VI e sua aproximação conosco, simples mortais, tem muito mais apelo que um filme complexo como o Cisne Negro. Aliás, muitas pessoas viram a obra-prima de Darren Aronofsky e não sabem dizer sobre o que se trata.  Quanto ao rei, as intenções são claras. Aproximação do herói. Em momento nenhum se colocam questões de Estado. É o homem que não consegue discursar. Palmas para Geoffrey Rush, interpretando Lionel Logue, aquele senhor que vive em um lugar sombrio, onde se tem acesso por um elevador velho e bambo. A descida ao subconsciente para descobrir o cerne da questão, o porquê do problema. Helena Bonham Carter (brilhante em O Clube da Luta) está péssima. Uma pena, grandes atrizes como ela devem escolher melhor seus personagens, pois têm poder para isso.  

Geoffrey Rush é Lionel Logue, o orador por trás do rei gago

1 de setembro de 2011

À espera da Melancolia

Por Julia Viegas


A aproximação do planeta Melancholia traz efeitos nefastos sobre nós. Vamos descobrindo ao longo do filme. Primeiro, os humores parecem alterados, pessoas são demasiadamente sinceras. A proximidade de algo inusitado faz cair máscaras sociais. Uma festa luxuosa, o casamento de Justine. Um castelo e uma longa área verde. Organizado por sua irmã super-protetora Claire. E bancada pelo cunhado mal-humorado Michael. O marido de Claire sabe tudo de astronomia e calcula minuciosamente o que vai acontecer. No entanto, não explica. Quando vão surgindo os efeitos, ele vai tratando de acalmar a esposa. Ocorrem coisas belas e assustadoras. Como, chuvas de algo como pétalas brancas de flores; raios lilases aparecem nas antenas parabólicas e até mesmo nos dedos de Justine (algo meio spider-man mesmo); os cavalos se agitam furiosamente e o efeito principal: perde-se a respiração.
Pois, foi justamente o que eu senti. Michael explica à aflita Claire, que  cuida do filho de poucos 5 ou 6 anos e de sua irmã mais nova – apesar de Justine estar imune ao acontecimento – o planeta Melancholia, ao entrar na órbita terrestre, suga o oxigênio de nossa atmosfera. Estava explicado. Só que, para mim, teve muito mais: chorei com Justine por sua dificuldade em mover as pernas, na sua dor, na perda do paladar. Em frente à banheira, chorei com Claire e Justine, essas duas irmãs maravilhosas, opostas e complementares. Revoltei-me junto com Justine quando sozinha no escritório do cunhado. Aplaudi seu gesto de rebeldia ao arrancar todos os livros de arte abstrata, geométrica, quadrada, expostos nas prateleiras e colocar força, dor, vivacidade: Caravaggio, Brueguel, Bosch. Tudo o que é humano e ferve. Quebrou-se o encanto da “festa de princesa”, passou da meia-noite e as coisas começaram a ser verdadeiras. Abriram as portas da percepção de William Blake. Emocionei-me com a heroína Claire, incorporada pela fabulosa Charlotte Gainsbourg – estou realmente começando a ficar fã dessa atriz, assim como sou de seu pai, desde o Anticristo, onde ela interpreta uma personagem totalmente diferente de Claire. Quanto ao Lars Von Trier, vou amá-lo sempre. Uma sina cinéfila de sua realidade; identificação. Pode falar a besteira que for. Pessoas como ele estão acima do bem e do mal. Von Trier é o Nietzche do cinema contemporâneo. Agradecida por sua coragem e capacidade de mostrar na tela o que muitos fecham os olhos para ver: o ser humano em seu estado bruto. E aí falo de todos os seus filmes, de Zentropa à Dogville (espetacular!), de Dançando no Escuro ao estupendo Festa de Família. Algo diferente a partir de Anticristo: parece-me que Von Trier vai mudando seu estilo, abandonando a câmera na mão e adotando uma estética visual mais sofisticada. Não sei se isso é bom. É diferente. Gosto dos dois. Gosto de tudo. Dele, meu Godard contemporâneo. E quem não gostar, seus dedos dizem tudo: F-U-C-K. Os gênios são assim.


Charlotte Gainsbourg interpreta Claire








Lars Von Trier

E a mão do diretor, que conduz os filmes...



















                           Nicole Kidman no insuperável Dogville





13 de julho de 2011

Meia-noite em Paris: Woody "Wilson" flanando através dos tempos

Por Julia Viegas


 
Woody Allen está mais comercial do que nunca. Rumores de batucadas insinuam que ele filmará seu próximo sucesso garantido no Rio de Janeiro. O palco, a Sapucaí. Aí sim, será o ápice do cine-pipoca. Meia-noite foi só um flerte.

Uma vez, uma senhora muito perspicaz me falou, com a naturalidade própria dos inteligentes, que via todos – sim, to-dos – os seriados estadunidenses. “Quem foi que disse que temos que pensar o tempo inteiro. Por que se divertir é tão condenado?” Flanando sobre o filme, eu diria, que é exatamente tudo o que dizem dele: faz pensar em como seria viver em outras épocas. Que temos a mania de achar que nos anos anteriores ao nosso nascimento o mundo era melhor blá blá blá.

Os escritores que admiramos são, geralmente, de uma época passada, porque a distância temporal faz termos a visão da gestalt de uma obra e de um autor. A idade passada é sempre melhor do que a atual porque tem um quê romântico. Mais fácil desejar o que nunca se teve. Querer viver o que nunca viveu e nem nunca viverá. Há também aquela coisa mágica de que depois de 00h tudo pode acontecer. E Paris, claro, um luxo.

Em resumo, tem: o dono do Marley (Owen Wilson, que, aliás, está fabuloso), uma loirinha sexy à la Scarlett Johansson, o mistério da meia-noite, a fascinação dos artistas por outros artistas que já se foram e que, felizmente não estão mais na Terra para competir com eles e, a mais luminosa de todas as cidades. Superficial? Não. Na verdade, é um filme extremamente agradável. Agradabilíssimo.

30 de junho de 2011

Cisne Negro: beleza, som e fúria

Por Julia Viegas



Mergulho na mente por meio do corpo. O duplo feminino, yng branco, yang negro. A luz e a sombra, pintura. A dupla gêmea, a mulher boa e a “má”. Ou, a virginal e a sedutora. Entrecruzando em rodopios vertiginosos de uma música extremamente… Linda!

O Cisne Negro é forte demais, tão intenso, potente, agudo, que muitas pessoas saem do cinema simplesmente sem saber explicar do que se trata o filme. Ouvi muita gente dizer simplesmente assim: “É bonito”. E essa é uma conclusão aparentemente superficial. Só que, não. O filme É isso: bonito.

Mas, bonito por quê? Tem um motivo. Nada é bonito, gostoso, leve, pesado, pancada, etéreo, à toa. O filme é de uma beleza extraordinária porque “fala” direto com o nosso inconsciente, com nossas imagens coletivas. O Cisne Negro atua direto no inconsciente de quem o assiste. Penso que a arte é mesmo isso, algo que atue dentro de nós, que nos faça desenvolver alguma transformação. Saí transformada da sala de cinema e já falei várias vezes sobre as personagens dele com a minha analista, que é junguiana – o que, aliás, eu acho que o filme é também.

Pois bem, é belo. Mas, não trata da beleza em si. Esse não é o tema. A trama é sobre/de nós, mulheres. Achei o filme extremamente feminino. E isso no sentido mais amplo do mundo. Pois é sabido que todos têm seu lado feminino.
O Cisne, ou melhor, os cines, me encantaram profundamente. Primeiro, foi como num sonho de menina- bailarina. Aquelas cenas iniciais: ela sonhando que dançava com o monstro super sexy; ela se esforçando para dar o melhor de si nos ensaios; seu corpo se adaptando aos movimentos; os estalar de ossos, que algumas vezes faz os nossos próprios doerem; os barulhinhos de asas batendo e a música do Tchaikovski “pura” ou remixada, que não há palavras para descrever tamanha beleza. Só há som! E, o belo príncipe, Leroy, é claro.

Depois, o escuro, quando Nina deixa aflorar, sob intensa pressão externa/interna, a sua sombra, a Cisne Negro – e aí entra um conceito junguiano, de que devemos nos reconciliar com a nossa sombra, pois só assim, teremos a nossa totalidade e quem sabe a felicidade viria disso, de ser inteiro. No momento que Nina liberta esse “animal feroz”, e aí eu me lembro do título “Mulheres que correm com os lobos”, o que era sonho de menina-bailarina, vira pesadelo.

Um sonho ruim tão intenso quanto o sonho bom. E o lado negro, o The Dark Side of the Moon psicodélico. O Lou Red nos convidando para dar uma passeada no Wild Side: “Hey babe, hey sugar, take a walk on the wild side”…
Essa força oculta; estranha a nós, parece nos prender ainda mais. São os tais desejos cruéis, tão bons e tão reprimidos cotidianamente.